| Conferência Dr. F. Alvim sobre "Os Princípios do desenvolvimento Mental" |
Os Princípios do desenvolvimento Mental.Desenvolvimento das Pulsões.Sexualidade Infantil.
Conferente: Dr. F. Alvim
Vamos ocupar-nos do capítulo que trata dos princípios do desenvolvimento mental (continuação) e que trata do desenvolvimento das pulsões e da sexualidade infantil. Começa o autor por uma interrogação. O que é um instinto? E este primeiro capítulo versa justamente a definição de instinto. Como sabem há aqui dois termos que são sinónimos que é o termo instinto e o termo pulsão. Usam-se indiferentemente e significam sensivelmente a mesma coisa. O autor começa por fazer notar que Freud distinguiu desde o princípio duas espécies de excitações. As excitações vindas do exterior, que são assimiláveis às percepções, e as excitações vindas do interno, do interior, que são os estímulos instintivos, anímicos ou internos. A grande diferença de qualidade entre estes dois estímulos é que o estímulo exterior é descontínuo, quer dizer, a percepção não é constante, pode escapar mais ou menos a ela no sono ou em certos estados de isolamento, e mesmo eventualmente voluntariamente provocados, ao passo que o estímulo interno é constante, permanente. Desde o nascer até à morte há um estímulo constante, um impulso interno que está constantemente a solicitar a consciência. A questão dos estímulos externos ou internos demanda um exame mais atento e diz aqui esta frase: todas as percepções, todos os estímulos sensoriais que nascem dentro ou fora do organismo têm um carácter provocante, provocam uma certa excitação à acção. Esta frase a meu ver não é correcta, e o próprio Fenichel, em artigos ulteriores, criticou esta maneira de ver pelo seguinte: se esta afirmação é verídica nas fases primitivas do desenvolvimento mais tarde uma vez que a personalidade atingiu um certo nível de maturação, mostrou-se falsa, quer dizer, a excitação à acção provocada pelos estímulos internos no adulto ou na criança a parti de uma certa idade é mais que duvidosa, quer dizer, uma determinada pulsão, uma determinada impressão nasce do interior mercê, e aqui é realmente onde a psicanálise de Freud se aparentava grandemente com as correntes organicistas ideológicas, porque é preciso não esquecer que a psicanálise é uma corrente fundamentalmente organicista, embora aparentemente pareça o contrário. Todo o motor da existência era assemelhado pelo próprio descobridor da psicanálise às excitações de ordem físico-química que se passariam no organismo, portanto de origem orgânica e descarregáveis numa acção. É isto que é duvidoso, porquanto se ao princípio, por falta de meios adequados ao controle das pulsões, toda a pulsão tem que ser imediatamente descarregada, - aquilo que nós chamamos o processo primário – mais tarde isto não é verdade e o que se vê é que qualquer pulsão, qualquer estímulo interno, desencadeia forçosamente um mecanismo inibidor, da mesma origem, quer dizer, uma pulsão de sinal contrário. O estímulo exterior age portanto como um factor de escolha apenas, quer dizer, entre as duas possibilidades, agir ou inibir, o estímulo exterior, a percepção, actua ou como liberador ou como reforçante da inibição. Isto é bastante importante porque aqui neste capítulo e nesta frase o Fenichel faz uma afirmação que ele próprio vem mais tarde a reconsiderar no seu artigo sobre “acting out”. Existe “acting out” quando uma pulsão, quando uma vontade, é descarregada sem passar pela consciência, duma maneira inadequada em relação ao objectivo do instinto. O “acting out” diferencia-se da acção adequada, justamente porque na acção adequada o objectivo da vontade da pulsão é prosseguido depois de uma certa transformação e portanto o próprio Fenichel, no seu artigo sobre o “acting out” que foi um artigo escrito nos últimos anos da sua vida e que é um verdadeiro cânon do pensamento psicanalítico, criticou estas afirmações que aqui fez. Portanto, pulsão ou instinto, seria na noção Freudiana qualquer coisa que era assemelhável aos “drives” dos animais, de ordem fisiológica, físico-química, provavelmente. O Freud interessou-se muito por aquilo que naquele tempo era ainda mal conhecido: as hormonas. Pensava que as próprias hormonas podiam ser a origem das pulsões. Isto, é claro, tinha um certo realismo, porque, vão ver, esta noção de pulsão, a pouco e pouco tornou-se uma noção muito mais psicológica e muito menos organicista, embora todos nós reconheçamos que evidentemente, a origem da vida deve ser um fenómeno de ordem material, mas que debaixo de alguns aspectos nos escapam e sobretudo neste capítulo do pensamento é muito difícil de atribuir a um fenómeno tão grosseiramente material, como uma troca de ácidos ou hormonas. Portanto, pulsão é sobretudo um conceito. O próprio Freud depois, em escritos posteriores sobre a teoria dos instintos, chamou aos instintos a nossa mitologia, justamente para traduzir isto: que toda esta doutrina das pulsões e dos instintos era sobretudo uma maneira de se fazer compreender, de fazer contacto entre uns psicanalistas e outros, quer dizer, para conceptualizar e tornar abstractos um certo número de coisas que se viam no decurso dos tratamentos e um certo número evidentemente de especulações que se podem fazer e que são sempre legítimas sobre o material que é fornecido pelos doentes. Em qualquer pulsão, Freud distinguia três características que eram o “but”, o objecto e a fonte. São estas três qualidades que estão implícitas no conceito de instinto. Eu vou vos dar um exemplo concreto: no instinto alimentar, a pulsão alimentar, o “but” seria o leite, a comida, objecto seria aquilo que contém a comida, neste caso seria o seio, e a fonte seria a fome. Noutro exemplo, na pulsão agressiva, uma coisa extremamente importante para a teoria psicanalítica e que aparece diferencialmente a partir duma certa fase do desenvolvimento, o “but” seriam as matérias fecais, o objecto seria o músculo, força, e a fonte seria a acção e neste caso a acção de defecar. Numa pulsão mais diferenciada como seria a pulsão erótica, a pulsão amorosa, o “but” seria o orgasmo, o objecto seria o outro sexo e a fonte seria a libido, comparada à fome. Portanto, como vêem, estas três noções definem justamente o que é uma pulsão. Há aqui um ponto que é também importante, que é justamente a classificação das pulsões. Freud ao princípio distinguiu duas espécies de pulsões, chamadas instintos do Eu e os instintos sexuais. Mais tarde, naquilo a que se chama a “segunda teoria dos instintos”, ele reconsiderou e falou apenas no instinto sexual e o seu oposto, o instinto agressivo. O Eros e o Tanatos. O instinto de vida, que seria sobretudo o instinto sexual, quer dizer, tudo quanto impulsionava e propulsionava o indivíduo para as relações inter-humanas e por outro lado tudo quanto o fazia repelir os outros e quanto tendia a retrair a vida da relação. Mais tarde voltaremos à discussão de instinto de morte. Desde o alvorecer da psicanálise esta noção de sexualidade foi, como sabem, extraordinariamente criticada. Foi uma das noções psicanalíticas que levantou mais celeuma, porquanto é preciso reportar-se à época histórica, à época do puritanismo romântico em que viveu ainda o Freud e que era o seu meio, a burguesia vienense da época, onde realmente a sexualidade era uma coisa tabu, era uma coisa em que ninguém falava e então quando Freud afirmou e descobriu a sexualidade infantil, a descoberta teve foros de uma verdadeira bomba não só nos meios científicos mas, e sobretudo, nos meios burgueses e naquilo a que se chamava os cultores da psicologia do senso comum. Eu hoje acho que até talvez seja necessário relembrar porque é que Freud considerou que os fenómenos que se viam na criança eram semelhantes, senão idênticos àqueles que se viam no adulto e de caracter sexual. É claro que há aqui os postulados que são estes:
1º - porque é o solo natal, é a origem de toda a sexualidade ulterior, quer dizer não há realmente um corte entre o estado infantil e o estado de adulto. Há uma evolução progressiva com fases que são mais aparentes mas com continuidade. Portanto todos os fenómenos que se vêem na criança vão se encontrar mais ou menos transformados, com forma mais ou menos diferente no adulto mas correspondendo ao mesmo fundo.
2º - e isto deriva das investigações clínicas do próprio Freud porque todo o adulto, cuja sexualidade está bloqueada por qualquer motivo reencontra as técnicas e os modos da sexualidade infantil como substituto. Portanto seria provada de novo a equivalência.
3º - porque a criança sente que a vida sexual como o adulto sente a sua sobretudo ligada ás mesmas emoções, quer dizer, o amor, a tracção, o ódio, a repulsão etc.
4º - porque as finalidades destas tendências são idênticas às que se observam em certas perversões sexuais dos adultos e que ninguém duvidou que tivessem outra origem que não a sexual.
Outra noção importante no instinto é esta noção de maturação das pulsões, quer dizer, a pulsão que existe desde o alvorecer da vida vai-se transformando progressivamente, vai tomando forma na sua tradução externa e mesmo no que diz respeito à vivência, contudo, estes três pontos o “but”, o objecto e a fonte ficam sempre mais ou menos idênticos, amadurecem. Portanto esta noção, maturação e pulsão, é uma noção bastante importante. A sexualidade infantil neste capítulo entende-se como uma sexualidade não madura, quer dizer, onde não houve uma maturação hormonal, onde não há ainda uma maturação. A sexualidade dos doentes, dos neuróticos assemelha-se em certos aspectos à sexualidade das crianças e por isso se diz que há uma regressão da sexualidade. Voltamos a este ponto de classificação dos instintos. Na primeira teoria como já vos tinha dito, Freud distinguia os instintos sexuais e atribuía a causa das perturbações mentais do adulto a um conflito entre estes dois instintos, um conflito instintivo. Era o que se chamava o conflito primário, quer dizer, o instinto do Eu com o sentimento das realidades e das oportunidades opunha-se aos instintos sexuais, que eram anónimos, brutos e que não conheciam, na sua origem, distinções nem relativizações. Isto, é claro, não é tão simples como parecia e mais tarde verificou-se que este conflito primitivo corresponde sensivelmente àquele que nós chamamos hoje ambivalência, quer dizer, é o caracter essencial do fenómeno psíquico. O psiquismo é ambivalente por definição. Qualquer conduta psicológica tem uma contra-partida e é sempre dupla, é a noção também de tese e de antítese ou de pares antitéticos depois bastante elaborada e não é o verdadeiro responsável das perturbações mentais do adulto. É apenas um aspecto desta reversibilidade que é talvez a característica fundamental da função mental ou psíquica. Passou-se então a distinguir um outro nível de conflito que é o conflito secundário que se passava já intra-psiquicamente, quer dizer, não entre o instinto e a realidade exterior, mas entre o instinto e uma forma de realidade introvertida que vem a ser o super-Eu. O conflito seria portanto um “drive”, um impulso, desenvolvia-se a tal inibição, isto já na personalidade já conformada semelhantemente à do adulto, desenvolvia-se uma inibição, que viria de uma outra parte do psiquismo que foi chamada depois o super-Eu e perante este conflito, havia uma resultante, uma espécie de compromisso que é finalmente o sintoma. Aqui estamos pouco familiarizados com estes conceitos analíticos é interessante ler e pensar no artigo de Freud “Inibição, sintoma e angústia” que é um artigo absolutamente fundamental que eu vos aconselho a leitura. Esta era a primeira teoria das pulsões, portanto o conflito primitivo do Eu e os instintos sexuais e que levou à descoberta do narcisismo, quer dizer, os instintos do Eu verificou-se depois que eram os instintos do narcisismo, todas estas pulsões, todas estas tendências que levam o indivíduo a retrair-se e a procurar a vida solitária e as satisfações de tipo auto-erótico. Depois esta teoria foi abandonada e foi sobretudo em seguida aos trabalhos de Karl Abraham que mostrou a importância dos elementos agressivos no desenvolvimento infantil, que Freud elaborou a segunda teoria dos instintos. A segunda teoria dos instintos foi muito criticada e ainda hoje continua a ser e baseou-se sobretudo na noção de pulsões opostas, pulsões de but, de objecto e de fonte, opostas, de duas origens. Quer dizer: ao princípio a primeira teoria é uma teoria monística a segunda é uma teoria dualística, Esta teoria foi sobretudo elaborada a partir dos trabalhos de Karl Abraham sobre a psicose manico-depressiva e sobretudo do estudo do complexo de Édipo, onde se verificou aquilo que é uma noção importantíssima, que é a desintrincação das pulsões. Verificou-se que a certa altura do desenvolvimento a criança separa estas duas pulsões que até ali, dificilmente se viam separadas mas justamente quando a criança começa a ter noção da diferença dos sexos e a noção de cúpula de binário, a criança desintrinca estas duas pulsões que até ali estão profundamente misturadas e verifica-se que há uma tendência, positiva, amorosa que vai para o progenitor do sexo oposto, e uma tendência agressiva, de repulsão, de afastamento, em relação ao progenitor do mesmo sexo. Esta teoria do instinto agressivo continua a ser muito criticada porque, se a base foi esta noção da desintrincação das pulsões, a base das especulações a seguir o Freud introduziu aqui uma quantidade enorme de especulações de ordem filosófica e ideológica. Como sabem no espírito do Freud, estava um grande interesse pelos fenómenos biológicos e é interessante também fazer notar que esta segunda teoria foi escrita por Freud no momento da morte de um filho e portanto há uma parte muito especulativa e há um certo número de psicanalistas que não aceita esta teoria do instinto de morte e que realmente não criticam estas ideias Freudianas e não as aceitam inteiramente. A outra base do instinto de morte foi também feita a partir daquilo a que se chama o princípio de repetição e poderão encontrar toda esta especulação elaborada no artigo de Freud “Para além do princípio do prazer”. Num resumo o próprio autor que estamos comentando, diz que não é contestável que há muitas vezes conflitos entre os interesses do Eu e as pulsões sexuais e que há também muitas vezes um conflito entre a agressividade e as tendências sexuais, Mas estas duas espécies de conflitos têm uma história e nasceram em certos pontos do desenvolvimento, da evolução, e não ficam activos tão largamente senão na medida em que reinam certas condições particulares, isto é uma frase que não sei se atingem bem a profundidade. Toda a teoria e a prática psicanalítica está implícita aqui dentro. Toda esta noção de que em certas condições inesperadas estes conflitos se podem reactivar sem que possamos falar num verdadeiro processo mórbido. Vamos agora entrar na sexualidade infantil. Portanto a sexualidade infantil presidia sob a égide dos instintos ainda não maduros, não sofrendo a maturação que vem depois a pouco e pouco com a evolução, era caracterizada por esta frase de Freud, célebre sob todos os aspectos que era que “a criança é um perverso polimorfo”. Frase lapidar que define justamente esta noção que se estava tratando comunicar de que o instinto obedece a uma lei que não é de forma alguma a lei da conveniência, a lei da relativização, mas a lei apenas da excitação, quer dizer, do que se sente, e portanto a criança pode escolher “partenaires” sexuais justamente obedecendo apenas ao critério de proximidade: aquele que está mais à mão, e sem uma escolha objectiva. Isto é muito importante porque ao fim e ao cabo vem a ser a justificação das atracções sexuais e altamente eróticas e geradoras de conflitos mais ou menos graves que é quando a criança toma os adultos, os que estão mais próximos, portanto os pais, correntemente, como objectos na sua sexualidade. A pulsão, ao princípio é anónima e portanto vem adquirir o nome do objecto ao qual se fixa, mais por razões de proximidade. Esta noção define a grande diferença que há entre a sexualidade da criança e a sexualidade do adulto. A sexualidade do adulto é uma sexualidade que está relacionada com os objectos. Os objectos da escolha livre do adulto, quer dizer. Nestes dois termos que nós usamos, a sexualidade genital e a sexualidade pré-genital. O adulto escolhe os seus objectos sexuais em relação às possibilidades de satisfação que o objecto lhe pode oferecer e não pela proximidade ou pela oportunidade. A primeira fase que se considerou e que se isolou na sexualidade infantil é a chamada fase oral, porque nesta maturação das pulsões, como sabem, as formas de expressão e as zonas encarregadas de traduzir o instinto vão mudando e a primeira é evidentemente a boca. É a isto que se chamou o estado oral. Começa também ao princípio da vida e que a pouco e pouco se vai diluindo mas que, evidentemente, é possível encontrar em todas as idades os traços desta importância da boca na vida erótica. Basta lembrarmo-nos da importância do beijo na sexualidade do adulto e doutras práticas de pré-excitação onde a boca tem um papel muitíssimo importante e inclusivamente como órgão genital. Portanto a zona erógenea da fase oral é a mucosa bucal. O but do instinto é evidentemente a excitação desta mucosa que evidentemente muito rapidamente se vai confundir com a substância que entra dentro da boca. Psicologicamente esta função liga-se à incorporação, isto é a possibilidade de apoderar-se dos objectos. A primeira noção de se apoderar de uma coisa e fazê-la sua, do sentimento de propriedade, é a possibilidade de poder meter as coisas na boca, poder engoli-las. É a fase que se chama de canibalismo, quer dizer, onde a relação inter-humana é assemelhada a uma relação mastigatória, alimentar. As pessoas devoram-se umas às outras e comunicam e contactam por esta forma. Como sabem os próprios adultos aproveitam desta tendência das crianças e há estes biscoitos e bolachas com formas mais ou menos animais ou humanas e que servem justamente para a criança aprender as primeiras relações. Mais tarde podemos encontrar isto sob a forma de traços na vida adulta em todas estas práticas da comunhão ou companheirismo, companheiro vem de “com panis” – comer o mesmo pão. São formas de participação que tem uma grande importância na formação de certos grupos. É aquilo a que se chama também a identificação primária. Sob o ponto de vista sintomatológico em certas perturbações podemos encontrar estes traços da fase oral e os traços do erotismo oral sob a forma daqueles três sintomas, chamada a tríade oral que é a vontade de comer e isso encontra-se muitas vezes nos tratamentos psicanalíticos e mesmo sem ser isto, os neuróticos podem trazer-nos estas queixas. Será pois a vontade de comer, a vontade de dormir e o medo de ser comido ou destruído pelo outro. Isto evidentemente sob as formas mias elaboradas e mais abstractas, quer dizer, o medo de ser criticado, o medo que uma outra pessoa o possa transformar com o peso da sua crítica. Tudo isto tem uma razão básica e causal na oralidade. Um dos autores que melhor estudou isto, e o Fenichel chama também a atenção, foi o Karl Abraham que eu já tinha citado e o Karl Abraham distinguiu, na fase oral, duas sub-fases, uma sub-fase pré-ambivalente que correspondia apenas à excitação da mucosa e a fase ambivalente, onde havia já a criação de um objecto. Não sei se isto também é um pouco especulativo, porquanto a excitação da boca implica excitação como qualquer outra coisa e temos outra vez o problema do ovo e da galinha e tenho a impressão que isto deve ser considerado simultâneo e não vejo grande utilidade em distinguir esta fase pré-ambivalente da fase ambivalente. É clássico distinguir. Na clínica as perturbações mentais que revelam um forte componente desta fase oral, uma forte fixação ou uma regressão a esta fase e iremos agora a seguir examinar este conceito de regressão e de fixação é sobretudo a melancolia e a psicose maniaco-depressiva, mas também as toxicomanias de formas alimentares, algumas formas de delinquência, anorexia mental e algumas perversões sexuais em particular certas formas de voyeurismo e de exibicionismo genital no homem. Portanto, na clínica, nós distinguimos a fixação e a regressão. De fixação conhecem um exemplo se leram o artigo. O Fenichel cita aqui aquela imagem clássica do Freud em que ele distinguia a regressão da fixação ele comparava o avanço de um exercício para um determinado fim e que ia deixando na retaguarda certas guarnições para guarnecer as praças fortes e que depois no momento da derrota o exército inteiro rebatia-se sobre aquelas praças fortes onde tinham ficado umas pequenas guarnições. As pequenas guarnições é a fixação, o rebater do exército para os locais onde estavam as ditas guarnições é a regressão. Isto é muito importante e é claro que é por vezes muito difícil de julgar e de calcular clinicamente o que é que corresponde a uma fixação muito forte, e cada vez nós encontramos mais isto na clínica, fixações muito fortes derivadas a um excesso de gratificação da criança ou um excesso de frustração em certas fases e portanto que se criam realmente situações de fixação extraordinariamente poderosas e, é claro, perante uma eventualidade traumática, uma situação patológica, realmente as regressões que se vêem são cada vez mais importantes e mais difíceis de mobilizar porque, como compreendem desta noção de fixação, se a tal guarnição é muito forte, uma vez que o exército regressou àquele porto, já dali não sai, porque sente uma certa segurança e sente possibilidades de defesa e nós encontramos cada vez mais isto na clínica, cada vez menos mobilidade nas regressões e cada vez uma importância maior das fixações que corresponde também à evolução da própria técnica psicanalítica o manejo das situações de fixação com técnicas que não vêm agora ao caso. A seguir à fase oral, vamos passar ao estado anal e vamos encontrar aqui o primeiro fenómeno daquilo que mais tarde se vai chamar a transferência, embora aqui nós chamemos transferência a fenómenos repetitivos, quer dizer, quando ao contacto de uma pessoa o indivíduo lhe aplica receitas e modos de comportamento já vividos com uma outra. Mas aqui há aspectos de transferência que podemos talvez chamar melhor um deslocamento de energias. É que na segunda fase, na fase anal, a primeira fase anal é vivida pela criança como se fosse oral, quer dizer, a criança descobre naquele momento funções de excreção e sobretudo a função anal a qual lhe desperta prazer e prazer que se torna mais ou menos consciente vai primeiro julgar a matéria fecal como uma matéria comestível. Isto é uma coisa conhecida da observação directa das crianças. Todas as crianças nesta primeira fase comem as fezes e só depois quando com a origem da repressão e com a origem do emiscuir do adulto, quer dizer, dos pais, neste capítulo que a criança abandona a atracção pelas fezes e que se passa então a verdadeira fase anal, quando a criança vai adquirir um outro sistema de relação, sistema de relação que agora já é mais parecido com o adulto, que é o sistema das trocas e então aquilo que se vê depois da criança começar por comer as fezes, a achá-las provavelmente boas passa a dá-las. É aquilo a que se chama o presente fecal, uma coisa extremamente importante. A criança começa a ter noção que a matéria fecal é uma coisa que sai dela e que ela pode dispor, pode guardar, pode oferecer, pode reter, quer dizer, o esboço daquilo que mais tarde, vem a ser uma relação entre pessoas, faz-se desta maneira um tanto prosaica. Portanto com a noção também que o adulto inculca muito rapidamente à criança numas famílias mais cedo que noutras que as fezes que são más, que é porcaria, que cheira mal, também os primeiros esboços de ataque se poderão ver usando a matéria fecal. Como conhecem todos os que frequentaram asilos que se vê naqueles doentes altamente regressivos e que se servem como acto agressivo de atirar as fezes acima das pessoas, enfermeiros, médicos. Há outra coisa também importante que se passa nesta fase anal que é talvez mais difícil de compreender que é estas fases cavalgarem umas sobre as outras. Telescopam umas sobre as outras e é claro esta fase anal vai cavalgar sobre a fase que vem a seguir que Fenichel chama uretral-fálica e na qual já há um esboço de diferenciação dos sexos ou uma pseudo-diferenciação dos sexos. É uma diferenciação feita por analogias e porque tem e não tem, não é uma verdadeira distinção. Isto é difícil porque muitos psicanalistas mesmo bem formados confundem estas coisas e só com bastante experiência clínica se consegue ver o que é uma verdadeira distinção dos sexos onde a pessoa, julga o outro sexo apenas por comparação consigo e não com esta noção de que é outra coisa. Isto é um problema altamente complexo no adulto, porque a maneira primitiva de conceber é por comparação e é muito difícil escapar a ela porque justamente nesta fase anal vai-se começar a esboçar a noção de feminibilidade assemelhada à parte passiva da função e a virilidade à parte activa. Como sabem na função anal há uma fase de relaxamento: para que as fezes saiam é preciso que o músculo se descontraia. Esta função é passiva e há uma fase activa que é a da força da propulsão das fezes para fora do ânus, e aqui há um primeiro esboço e com frequência se vê que nas crianças do sexo masculino há uma maior tendência para a retenção do que nas meninas, nas quais, ao contrário, há uma maior tendência para a libertação da função. Aqui, nesta fase anal, cria-se também a noção psicológica agora mais concretizada de ambivalência, de dar e não dar, de reter e de largar, de comunicar ou de esconder e passam-se os fenómenos de identificação secundária. A criança tem a noção que as próprias fezes podem ser consideradas como objecto e como objecto que no espírito da criança é um objecto vivo como se fosse uma pessoa. Isto é curioso, porque certos neuróticos chegam a personalizar as fezes, chegam a falar com as fezes e sobretudo os hipocondríacos. Há verdadeiros diálogos com as fezes. Isto é uma coisa que parece bizarra mas que se compreende porque as fezes são animadas, entram num mundo animistico. A criança assemelha as fezes a um objecto do qual se tem que separar. Isto é muito importante, porque toda a possibilidade que a criança tem de largar a mãe, o objecto alimentar, o seio, vai-se fazer por esta possibilidade de largar também as fezes. Porque isto é uma noção que está ainda no espírito realístico de nós todos, é que se faz aquilo que se come. Isto é uma ideia corrente, embora totalmente falsa. A mãe é aquilo que se pode depois largar. Isto é muito importante porque vai dar origem às identificações mais selectivas: a criança vai poder-se identificar ao pai ou à mãe conforme o sexo. Começa aqui também a noção de distinção. Quando à parte clínica, o que nós encontramos como tradução de uma forte fixação ou regressão à fase sádico-anal é a neurose obsessiva, o fetichismo e no plano do caracter, aquela tríade de sintomas anais: a parcimónia, o escrúpulo e a dúvida. Poderão pensar depois um pouco mais nisto: como é que se formam estas maneiras psicológicas de agir. A seguir a esta fase temos o estado uretral-fálico que, a meu ver e também do Ferensky, é o primeiro estado genital, quer dizer, é simplesmente uma consequência, eu penso assim, o Fenichel não está de acordo, é apenas a aplicação ao estado genital (já há noção de diferenças de sexo) dos princípios da fase anal e então esta primeira noção de diferença dos sexos vem a ser ao fim e ao cabo duas maneiras de urinar: há a maneira de urinar da criança e a maneira de urinar do adulto e depois há a maneira de urinar das meninas e a maneira de urinar dos rapazes e a primeira noção de diferenciação sexual é esta também, bastante prosaica. Os meninos que urinam de pé e as meninas que urinam sentadas. A própria urina é assemelhada muitas vezes com a matéria fecal, portanto usada também no mesmo tipo de princípios de forças. Nos rapazes a fase uretral tem um prolongamento maior. Esta é a fase m que as crianças fazem os concursos de o jacto atingir mais longe e atribuem por outro lado virtudes mágicas à urina, sinal de força e mesmo virtudes reprodutivas. Justamente por isto é que eu digo que isto já é um esboço de diferenciação sexual, mas encarada segundo o modo e segundo a maneira anal – força. Como traços de caracter e sinais psicológicos de fixação ou de regressão a este estado uretral-fálico encontrarão comportamentos de arrogância, de ambição e sobretudo de sobre-compensação, quer dizer, estas pessoas que têm tendência sempre a camuflar as suas limitações e a sobre-compensar com uma actividade que é comparável à actividade urinária. Querem sempre urinar mais longe e melhor que rodos os outros, encontram-se certas formas de reivindicação, reivindicação fálica sobretudo na mulher, onde a mulher tem a impressão que não possui um órgão urinário tão perfeito como os rapazes e então tenta reivindicar e negar isto e dizer que pode fazer exactamente. Encontraremos umas meninas nesta fase justamente tentativas de urinar também de pé e dirigir o jacto também contra a parede e mais tarde numa forma mais psicológica, este tipo de mulher que tem dificuldade de se relacionar com o homem, que reivindica sempre a sua feminilidade. Encontram também certas formas de homossexualidade ligas com esta fixação ou regressão uretral, sobretudo as formas de homossexualidade ligadas a uma duração de falo no homem, encontram certas formas de competição de sobre-valorização e sobre-compensação e de actividades: pessoas que querem sempre fazer coisas, não podem estar paradas, não podem descansar, têm que estar constantemente a fazer coisas para se valorizarem. Encontram formas de “acting out” portanto certas formas de delinquência estão ligadas a isto e certas formas de pioneirismo, como doenças encontram ligado a isto, sobretudo a histeria: certas formas de histeria, histeria de conversão. Certas formas de esquizofrenia sobretudo de forma autistica. A parte final do artigo fala das outras zona erógeneas. As zonas em principio embora existam, sabe-se perfeitamente que a pele, que deu mucosas que a visão, podem ser o ouvido ou podem ser zonas erógeneas, basta lembrar-nos que pessoas cuja forma de relação é puramente visual como sejam por exemplo, os voyeuristas ou os exibicionistas, os músicos e os pintores, etc. com formas sublimadas. Mas de uma maneira geral estas zonas erógeneas podem sempre reduzir, a três formas principais, a forma oral, a forma anal, e a forma uretral, porque estão ligadas. Por exemplo, o ouvido é correntemente assemelhado a uma boca, de resto até com fantasias que são muito correntes, em certas formas de histeria feminina e que se podem encontrar até na história das religiões sob a forma de incorporação pela orelha, de engravidamento pela orelha. Enfim, é o que está implícito no mito do Espírito Santo da Anunciação. Para a visão a mesma coisa, a visão é correntemente assemelhada a uma força do olhar e à força das fezes e as perversões e os sintomas ligados com a utilização da visão, estão ligados com a sexualidade anal. Quanto à pele, a sensibilidade cutânea, o tacto, é evidentemente altamente relacionada com a boca porque toda esta sinergia, - o tacto começa pela mão, é uma coisa que todos conhecem e encontram isto espalhado em todos os instintos parciais nas várias zonas erógeneas estão representadas e encontram isto na sexualidade normal e todos sabem que a visão de um objecto amado e bonito é uma coisa excitante, todas as múltiplas formas parciais e depois as perversões, quer dizer, quando a coisa se isola e deixa de estar debaixo da primazia genital. Certas formas de pensamento mágico com mau olhado e portanto vamos parar aqui e depois entra-se no estado propriamente fálico, aquela distinção entre o estado urinário e fálico. O fálico que já é ligado à distinção dos sexos e ao passo que aqui como viram, é uma noção de força mais ou menos importante. É uma noção ainda analisada, analisado no sentido anal e não de psicanálise. |